EMPOSSADOS

Enquanto em Brasília, nós do JA.CA, nos debruçamos por entender minimamente a relação das pessoas com a propriedade, e como essa disfunção normativa cria uma relação bastante confusa do público e privado, e do “privadoXprivado” ou seja, dos inúmeros posseiros que se apresentam como possíveis donos da terra na recente história da cidade.

Fomos recebidos em uma casa que era uma ocupação, ou seja, em qual seus donos, ou melhor, seus habitantes, que na realidade, não são seus proprietários, uma vez que não tem a posse legal do território em qual a casa se localiza, vive alí tranquilamente, e cuida e investe no local há mais de 20 anos. Isso para nós, vindos de Minas Gerais, um estado que tem uma tradição bem enraizada na propriedade territorial, nos pareceu completamente descabido, mas durante a estadia pudemos notar que é uma prática bastante real, e que mesmo quando se tenta obter a posse legal de uma propriedade fora do plano, a tradição dos posseiros vem revelando antigos golpes que questionam posses de milhares de famílias que acreditavam asseguradas.

Partimos desse olhar da ocupação para conduzir percursos diários na cidade, no primeiro dia, caminhamos pela asa sul, buscando perceber como as regras estabelecidas pelos idealizadores da cidade limitavam ou impulsionavam possibilidades de convivências, e como as pessoas subvertiam os estas inúmeras “regras” com pequenas invasões ou delimitações, novas ocupações do públicos ou delimitações e imposições do espaço criando pequeno espaços privados. Algumas vezes reconhecíamos que as subversões traziam um pouco mais de calor para a cidade, outras extrapolavam e retiravam do espaço a potência do projeto das super quadras, com grades, portões, uso privado dos pilotis etc.

No segundo dia percorremos a esplanada, buscando sempre perceber como as pessoas transformavam os espaços planejados e idealizados em espaços funcionais e usados no cotidianos. Onde comem, como funciona o comercio, como vivem os pedestres forçados a caminhar entre os prédios e a atravessar as vias sem semáforo e demarcações para pedestres?

O terceiro dia fomos conhecer a região da UNB, algumas quadras ainda vazias de propriedade da universidade onde existem experimentos de horta coletiva e ocupações de jardins comunitários. À tarde apresentamos o projeto a convite do professor Cayo Honorato, no Instituto de Artes Visuais, estavam presentes alunos e professores da graduação e da pós-graduação, além de artistas e gestores culturais da cidade. Após a apresentação, participamos do inicio das ocupações estudantis da escola, que foi fechada naquele mesmo dia.

 

A quarta-feira, feriado de finados, resolvemos assistir a missa na capela da quadra modelo, percorremos enormes espaços vazios, imaginávamos playgrounds cheios de crianças e gramados com pessoas que descansavam num feriado em meio à semana. Colhemos amoras e vimos jacas ainda a madurar, lamentamos como faltam espaços às árvores de Belo Horizonte, as de Brasília crescem frondosas, sem podas assassinas que as deixam equilibrando de um lado ou outro desviando de fios elétricos e de telefones. Tomamos café com amigos, em um café que invade o jardim de uma quadra, uma invasão simpática, tornando a entrada principal para o que hoje são os fundos, assim como imaginou Lúcio Costa. Passeamos pela feira da antena, ordenado mercado popular e pelos jardins da Funarte. Visitamos o Espaço Cultural Elefante, onde encontramos alguns artistas e gestores da cidade. Fomos levados a passeio pela região dos lagos e depois ao Corrego do Urubu, uma região rural bem na borda da cidade, perto de condomínios de luxo, originalmente uma comunidade do daime, onde há hoje uma pequena residência de artistas. Percorremos a serra por trilhas.

Quinta feira pegamos o metrô rumo a Ceilândia (Campanha de Irradicação de Invasões ), para conhecer as expansões mais contemporâneas que seguem a conexão do metrô. E no final da tarde fomos ao lago sul, conhecer as grandes mansões e tentar enxergar as retiradas nas invasões das casas das margens do lago e dos acessos públicos a ele. A noite de quinta fomos conhecer as ruas dos bares, e vimos como vários deles avançam aos espaços das quadras, e como a cidade tenta controlar este avanço e o ruído.

Na sexta feira nos presenteamos com um banho na piscina pública do parque da água mineral, e partimos assombrados pela beleza e pelo fato de que desconhecíamos o local.

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