LONA, POEIRA E CIMENTO [Rumores de um Certo Modernismo Barroco • 2o capítulo]

Brasília / DF

Ali, busquei explorar aspectos ligados à fundação da cidade como um polo de expansão territorial, política e cultural. Nesse sentido meu interesse se voltou para uma observação das inserções urbanísticas e arquitetônicas modernas na paisagem, tanto como planejamento e design de espaços inovadores, como idealização de um projeto de progresso, como imagens de um futuro promissor. Porém sabemos que tais promessas tem seu cunho existencial específico, e me interessam assim como possibilidade de ler um outro lado das ondas de desenvolvimento nacional, talvez pouco reconhecidas ou senão, estrategicamente obliteradas pela historiografia oficial, ou seja: um olhar para os efeitos relativamente invisíveis e destrutivos – além de violentos – contra a paisagem e seus habitantes anteriores, oriundos de ciclos de deslocamentos espaçosociais e de miscigenação racial, entre etnias ameríndias, européias e africanas.

Brasilia pode ser considerada, então, como a epítome de um projeto colonizador, que se traveste de avanço moderno, ou como dizem, um esforço sobre-humano de construir algo maravilhosos, onde antes não havia nada.

A cidade torna-se ao mesmo tempo um polo aglutinador de pessoas em busca de algo melhor para suas vidas e um espaço de oportunidades. É um polo de trabalho para os candangos vindos de todos as partes miseráveis do norte e nordeste, assim como torna-se o entreposto de investimento nas conquistas do vasto território a ser anexado, explorado e ocupado. A rodovia Belém - Brasilia poderia ser vista, assim, como uma espécie de nova bandeira de exploração. Se hoje existe um grande avanço do agronegócio na região, em choque com os biomas do Pantanal, do Cerrado e da própria Amazonia (no cinturão de fogo), a semente desse expansionismo poderia se conectar à Brasilia, como seu marco geográfico e seu porto seguro jurídico - político. Se hoje as cidades satélites padecem devido à violência e à pobreza, tal configuração nada mais é do que um transbordamento, em escala territorial, das relações coloniais entre os senhores e os escravos, da casa grande com a senzala.

Contradição premente essa, para uma capital destinada ao novo homem e um novo país. Desenhada e planejada por intelectuais ditos comunistas, mas construída com o suor de milhares e as vidas de muitos, na toada de verdadeiras obras faraônicas, em pleno século XX e no quente hemisfério Sul. Lona, Poeira e Cimento é o que sustentava as vidas desses candangos, é o que sempre lhes resta.

Nessa direção que os dias passados em Brasília foram voltados à realização de visitas e registros fotográficos em locais chave, como Catetinho, Esplanada do Ministérios, Núcleo BandeiranteArquivo Historio e Museu da Memória Candanga. Esse itinerário buscou elaborar um percurso histórico-critico para poder refletir sobre as diversas facetas das promessas de futuro que até hoje, permanecem inacabadas, como distorções dos planos de desenvolvimento e das narrativas históricas que geram uma infinidade de elementos e retóricas (também e inclusive, espaçovisuais), as quais se retro-alimentam e sustentam novas promessas, ainda vazias. Design e crime tornam-se dois lados de uma mesma moeda de desenvolvimento, onde modernismo e colonialismo se unem para a renovação e manutenção de certos privilégios, de um status quo.

Há ainda nesse projeto a inspiração advinda de um filme sobre a própria cidade de Brasília, realizado por Joaquim Pedro de Andrade: Brasília, Contradições de uma Cidade Nova (1967), e além desse, também é referência o congresso internacional da AICA organizado por Mario Pedrosa Brasília, Cidade Nova, Síntese das Artes, realizado em Brasilia, Rio de Janeiro e São Paulo (1959), no qual se reuniram diversos intelectuais e artistas da época para discutir o que era e seria Brasilia… sua dimensão utópica, a ainda presente segregação e o prenuncio de falha enquanto urbe moderna (mas potência como propaganda, como imagem política e promessa cultural a se cumprir). O sem fim de contradições a serem resolvidas ja enunciavam, em ambas as produções citadas, as contradições desse marco espacial e humano: ela incarna e materializa os múltiplos níveis de contradições de sua época, do projeto moderno e senão, da própria cultura e sociedade ocidental.

Beto Shwafaty

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