PREGUIÇOSA

Teresina / PI

Finada estava Teresina nos dias que circundaram o feriado dos mortos, mostrando que a data serve mesmo é pro conforto dos vivos, já que os que se foram, parecem se importar pouco com o calendário. Caído na quarta-feira, ofereceu a oportunidade de enforcar o início da semana unindo-se a outras datas comemorativas que homenageiam outra figura em vias de extinção: o funcionário público. Decretou-se feriado na segunda e terça feiras, ou melhor, ponto facultativo, pra que os funcionários terceirizados não se confundam, acreditando que possuam os mesmos direitos do governador em seu palácio na avenida. A menor do mundo, diga-se de passagem, mas, ainda assim, uma avenida.

Calor de matar. Nesses primeiros dias, presente mesmo, só o Sol, em maiúsculo para mostrar sua onipotência aos poucos seres vivos que insistiam em caminhar pela aridez das ruas. A cada esquina da cidade plana, um horizonte infinito onde não vê o fim das ruas com suas escassas árvores, contradizendo o poeta maranhense que em visita a cidade mostrou-lhe admiração com o título de “Cidade Verde”. Coelho Neto já não está entre nós pra ver o que o verde desbotou e se tornou cinza, não por culpa do Sol, mas sim por nossa fúria progressista.

Cidade planejada como outras cinco capitais brasileiras, Teresina padece dos mesmos males que suas companheiras. Os planos originais nasceram ou se tornaram excludentes empurrando as camadas mais pobres da população para os limites urbanos: mato, morros, alagados, satélites. Movimento contínuo de expulsão, onde lugares antes distantes e indesejados tornam-se alvo de ímpetos expansionistas e especulatórios.

Uma profusão de novos empreendimentos imobiliários coexistem com outros tantos imóveis vazios e abandonados. A especulação imobiliária, parte da lógica que compreende a produção e consumo constantes como motores da economia nos ajudam a desconfiar da transformação do centro de Teresina. Casas que outrora serviam a moradias tiveram suas fachadas grotescamente maquiadas por uma insípida estética comercial. Em algum momento parecem ter vendido a ideia que o centro era um lugar ruim para morar e que as pessoas poderiam obter mais lucro vendendo ou alugando suas casas pra lojas, consultórios, escolas privadas e outros negócios. Deram a essa Teresina a alcunha de velha, de ultrapassada, insegura ao mesmo tempo em que era construída uma Nova Teresina, do outro lado do rio Poti, com torres de apartamentos, shopping centers e muitas vagas de estacionamento. Uma Teresina plastificada que poderia ser confundida com qualquer novo bairro classe média de outra grande cidade brasileira. De costas para o rio, a Nova Teresina desaparece esvaziada de memória e identidade.

Mas chega a quinta feira e os vivos reaparecem nas ruas adjacentes ao Mercado Central. Chegam para usá-la durante o dia, pra comprar óculos, sapato, pastel, celular. Ir ao banco, ao médico, à escola. E novamente abandoná-la ao cair da tarde, saindo de carro, ônibus, bicicleta, van ou no trem de linha solitária. Repetem o ato de seu fundador, o Conselheiro Saraiva, que deu no pé um ano após ter fundado a cidade, transferindo a capital da então província para a fronteira com o Maranhão. Demoraria mais um pouco se tivesse recostado em uma preguiçosa, adaptação mais confortável da cadeira jabuti.

Mateus Mesquita

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